segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Água que corre

O título é de MANUEL ANTÓNIO PINA, em magnífica crónica publicada no JN*, que ainda hoje mantém actualidade.
Dizia o poeta:
"Realiza-se em Serralves, dirigido a profissionais das indústrias criativas, o que quer que isso seja, um ciclo de conferências  sobre a propriedade industrial e intelectual. A propriedade constitui um interminável problema filosófico, e a noção de "propriedade intelectual" mais ainda, principalmente hoje, com a desmaterialização e multiplicação dos usos e das técnicas de comunicação e reproduz ção. No admirável "Perre Ménard, autor do Quixote", Borges coloca, não sem radical ironia, a questão da autoria. No limite, cada leitor (ouvinte, espectador) é um autor e cada leitura uma autoria. Ainda no limite, poderíamos mesmo perguntar de "quem" são as nossas palavras ou o modo como as usamos ou se ligam umas às outras, as nossas ideias, a própria ideia que temos de criação e concluir, com Prroudhon, que a propriedade, em especial, a intelectual é necessariamente um roubo e o autor um ladrão que rouba a outros ladrões. A autoria (contra mim falo, que sou autor) tem hoje inexplicável prestígio e a sua patética luta para impor barreiras jurídicas à comunitarização da criação é tentar agarrar água que corre."


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* Na sua coluna habitual POR OUTRAS PALAVRAS, de 11 de Novembro de 2009
 

domingo, 30 de dezembro de 2018

Enquanto é tempo

Gosto muito de lugares como este.
São cada vez mais raros, por isso cada vez mais valiosos.
Coloco sempre a questão como preservá-los e se ainda é tempo?

 
Dou comigo a pensar que cada vez há menos preocupação com a defesa da Natureza!
Como é possível haver alguém que diz o problema do aquecimento do planeta constitui uma invenção dos chineses?  
Neste período, de fim de ciclo, em que se prepara o início de um novo ano, porque não dá, o mundo, as mãos, na luta contra as causas e malefícios das alterações climáticas?

domingo, 2 de dezembro de 2018

Um dia no museu

Chegámos mais cedo, a fim de ultimar os preparativos para a sessão marcada para as 15:30.
Os músicos João Paulo Sousa e  Miguel Martins já lá estavam, de mãos arregaçadas, afinando as guitarras e soltando os primeiros acordes.
E ainda bem: foi mais fácil o acerto dos passos que cada um teria de dar para a interligação entre a Palavra e a Música, ficando, cada um dos intérpretes, cientes do seu papel.
Alguns minutos após a hora, entraram as últimas pessoas.

Paula Cardoso, a Directora, abriu a sessão, dando as boas vindas, de forma muito emocionada, não só pela importância do acontecimento, mas também pelo facto de se ter prevalecido do ensejo para se despedir do cargo, que brevemente conhecerá a sucessora.
Isabel Cabral, a embaixadora da Língua Espanhola, fez o habitual discurso de apresentação do evento, que incluiu uma sucinta explicação sobre a natureza, estrutura e fins da Fundación Cesar Egído Serrano e do Museo de La Palabra, seu instrumento em Toledo.
Soares Marques, ilustre Orador, brindou-nos com uma divertida exposição sobre  "O Poder da Palavra", deambulando pelos inúmeros caminhos da História, Literatura, Linguística, desde os primórdios ("No início era o Verbo"- frase do Evangelho, bem adaptada ao momento) até aos nossos dias.
Intérpretes da Palavra e da Música (o trinado das cordas foi maravilhoso) deram o seu melhor.
No final, todos (público incluído) uniram-se à volta da mesa e brindaram com o néctar dos deuses (Quinta do Perdigão).

sábado, 1 de dezembro de 2018

A Palavra Dita

"Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos /A paz sem vencedor e sem vencidos !" - gritou Isabel Cabral, quando recitava o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, na sessão comemorativa do Dia Internacional da Palavra - 24 de Novembro de 2018 *-, realizada no Museu Nacional Grão Vasco.

"Dai-nos, Senhor, a paz! - clamou mais uma vez, e outra, e outra... tantas quantas as necessárias para acordar alguém do estado de letargia em que possa ter caído. Foi oportuna a selecção do poema: é preciso que  , perante a grave violência da sociedade actual, as pessoas reajam e se indignem! É preciso lembrar o papel da Palavra: unir os povos e as religiões.
Houve leitura de poemas para todos os gostos, desde Pessoa (lido deliciosamente pelo José Maria Costa) até António Gedeão, passando por Ary dos Santos, Pablo Neruda e José Jorge Letria

* - o Dia Internacional da Palavra foi criado pela Fundacion Egido Serrano.
O Museo de la Palavra é o instrumento ao seu dispor para levar a cabo as diversas actividades de divulgação da língua espanhola em todo o mundo. Tem como lema: "A palavra é o vínculo da humanidade" . .

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Apenas uma página beirã

"Aqui, onde estou, numa aldeia isolada, não ouço as mentiras e corto as aflições com a música deste silêncio perfumado. Há muitos anos, quando cheguei pela primeira vez, o mundo parecia mais sossegado, mas não era, nem estava. A beleza, direi perfeita, do sítio impôs-se-me de tal modo que escrevi, para o Diário Popular, jornal de que era redactor, uma crónica que assim começava: "Escrevo no balcão da casa de piçarras negras, no último dos meus dias beirões. (...)

Precisava de vir a estes montes da Senhora (belo nome!) para fugir à mentira generalizada e à falta de pudor que parece não ser estanque. Nesta gente que me fala e me vem cumprimentar como ao foragido que voltou, há a grandeza da decência e da integridade, a raiz genuína e inicial das coisas.
Não vinha à aldeia há muitos anos, e faltava-me, ou esquecera a força primordial do mundo. Talvez esteja a lembrar-me do Jacinto de "A Cidade e as Serras", talvez; mas não é mau embalar um pouco as saudades: ter saudades é ter lastro, ter história, ter feito algum sulco por onde se passou.
(...)
Da janela ampla viam-se as sombras maciças das montanhas, ao longe.*
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* Fragmento de  A CANETA DAS SETE LÉGUAS, coluna do saudoso Baptista Bastos, jornal Negócios, sexta-feira 08 de Agosto de 2014.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

ainda arde, o fogo

"O relatório da auditoria sobre o fogo apurou um facto, compete ao presidente da ANPC desencadear procedimentos internos. Quem é que tentou fazer aquilo?" 
- questiona a dirigente Nádia Piazza*, ao saber que tinham sido apagadas provas vitais para o apuramento da tragédia de Pedrógão;
- e dirigiu uma carta à ANPC e ao IGAI [o departamento responsável em matéria disciplinar], a solicitar  explicações sobre o sucedido, mas sem que até ao momento tenha obtido qualquer resposta.

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*  presidente da Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande (AVIPG);