sexta-feira, 22 de junho de 2012

O homem-povo

Hoje, na sua terra natal, vai ser homenageado o homem-povo: o parque infantil vai ter o seu nome. .
Partiu num momento de solidão, que, nos últimos tempos, frequentemente o assolava.
 

Um homem bom.  lutador incansável que, enquanto membro da autarquia local, defendia acerrimamente a população, principalmente a mais carenciada.
 
Os membros da autarquia, familiares e amigos prestam-lhe uma digna e merecida homenagem.

sábado, 9 de junho de 2012

áurea menina


“É possível que, na queda, se tenha magoado um pouco. E, por causa da dor, se tenha retraído, a fim de passar despercebida: uma atitude típica da espécie, que, como presa habitual, precisa de “enganar” os predadores, em luta pela sobrevivência.”
As surpreendentes palavras trouxeram algum alívio. Será que, afinal, a doença não seria tão grave como nos parecera?
A verdade é que havia dois dias que toda a família andava preocupada com o estado de saúde da hamster. Tudo começou quando o bicho apareceu, pela manhã, a tiritar de frio, fora da gaiola, a um canto da sala. Será que caiu e se magoou? Será que o frio da noite gélida, fora do aconchego do ninho, lhe teria feito mal?
As espreitadelas à gaiola sucediam-se a toda a hora, observando a evolução do animal … que nos parecia sem genica, não comia nem bebia… e passava a vida no ninho. A preocupação estampou-se no semblante de toda a família!
- Temos que a levar ao veterinário!
Coube-me a tarefa. Mil cuidados no transporte, primeiro no automóvel e depois ao colo até à consulta.
“Então, o que tem esta menina?”
Mal a veterinária lhe pega, deu-lhe uma valente mordidela.
- Está com muita vitalidade!
Observa-a atentamente e desencadeia os procedimentos habituais, até que:
-Não lhe encontro nada de especial… aparentemente está bem. Recomendo apenas alguns pequenos cuidados e vigilância.
Explica que tudo se pode ter devido ao forte instinto de defesa pela sobrevivência.
Continuou cautelosa durante alguns dias, mas, pouco a pouco, recuperou totalmente.  Olhos vivos e misteriosos. Sempre em movimento. E no dorso, o brilho e a cor de ouro [a que se deve o seu nome].
Encantador regresso à normalidade.
Nada melhor existe no mundo!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Não posso adiar o amor para outro século

03.03.2012


“Hoje não quero falar de futebol! Hoje o que quero é felicitar-te pela celebração do aniversário! Oxalá que, quando fores ve…velhi… (desculpa, não é a palavra que queria dizer!...), oxalá que, nessa altura, tenhas saúde e os filhos a teu lado, os filhos… em harmonia. V a i  j a n t a r  f o r a  e  d i v e r t e – t e.  É  o  q u e  i m p o r t a !

O pai, cansado e ofegante, fala ao telefone,  devagar. Parco nas palavras, mas muito claro e convincente em tudo quanto diz, como quem pretende transmitir algo de importante, essencial e, diria até, existencial. Parece-me que, no momento, à distância de 300 quilómetros, tenta dar o melhor que tem. Sinto, então, que, através do cabo telefónico, desagua à minha frente uma torrente de calor humano que toma conta de mim. Compreendo logo que só a fonte do amor é capaz de semelhante milagre!

Que homem de coragem! Que desprendimento em relação às coisas terrenas! Há dias, numa visita que fizémos, deu um crucifixo à filha, dizendo-lhe que o objecto, para ele, tinha muito valor e que por isso gostava de lho dar, interessante é dar o que gostamos - frisou.

Coisas simples, de extremo significado, que tocam a alma!



14.03.2012

Hoje vai à consulta de cardiologia no Hospital de Santa Maria. Mais um passo na difícil convalescença da fibrilação auricular que o levou ao internamento hospitalar!
Vai seguro, porque o médico é professor catedrático, uma sumidade na área da especialidade, sempre rodeado de médicos aprendizes [ como acontecia no seu tempo ao iniciar a carreira de estomatologista - faz questão de relembrar].
No momento em que escrevo o presente texto, recordo, emocionado, os dois episódios supra relatados; o eco das suas convictas palavras ressoa como uma benção!
Espero que receba boas novas!
Com certeza vai correr bem.
Que lição, meu Deus!



*O título é “roubado” ao poema de António Ramos Rosa seleccionado por Maria Alzira Seixo na antologia “os poemas da minha vida”, edição do PÚBLICO, Junho de 2005.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Voz interior


Livre, poeta, livre!

A noite é o teu Jardim das Oliveiras:
Ninguém te vê, nem ouve, nem pressente.
Dormem os inimigos
E os amigos.
Corre, e canta a correr, água corrente!

Purifica o teu espírito mortal
Numa decantação de melodias.
Estrema o oiro do bem das areias do mal,
O oiro que te vem do fundo das galerias…

E quando a luz do sol chegar de novo,
Entrega ao desespero do teu povo
O poema de amor que lhe fizeste:
Meia dúzia de versos, que serão
Uma espécie de pão
Celeste.


M I G U E L  T O R G A

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ave da esperança

Passo a noite a sonhar o amanhecer.
Sou a ave da esperança.
Pássaro triste que na luz do sol
Aquece as alegrias do futuro,
O tempo que há-de vir sem este muro
De silêncio e negrura
A cercá-lo de medo e de espessura
Maciça e tumular;
O tempo que há-de vir – esse desejo
Com asas, primavera e liberdade;
Tempo que ninguém há-de
Corromper
Com palavras de amor, que são a morte
Antes de se morrer.




MIGUEL TORGA
Penas do Purgatório
(Poemas)
3ª Edição

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A aceitação dos dias

Dá-se um rasgão no pálido do céu. Há dias
assim. Há dias em que sai pelo céu
uma ponta da alma. Há dias misteriosos
que entendemos, sem saber porquê.
Dias de imensa simplicidade em existir,
rosados, claros, incomensuráveis. De exercício
no abrir das labaredas. De aceitação
pura do branco. De permitir uma dança,
quebrada pelos rins, de todo o olhar. Do
esplendor radiado da invenção, em que flui
a lava do momento, a garra
cravada pelo dia. Mozart é
isso.

ISABEL CRISTINA PIRES
In Divina Música,
Antologia de Poesia, 2009

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A casa d'avó

Portão, portas e janelas escancaradas. O interior vazio, sem vivalma.
Entramos? Como podemos, se a casa já não nos pertence?! Toda a aldeia sabe que foi vendida!
Após breves instantes de hesitação, a curiosidade ditou mais alto as suas regras.
Os degraus da escadaria exterior e o patim da entrada estão cobertos de terra, cal caída das paredes, cacos de telha, cigarros fumados… e pó, muito pó… por todo o lado! Tinham-me relatado que por ali, à noite, deambulavam vagabundos e mulheres de mau porte, mas não acreditei. Um exagero, pensei, ou até, quem sabe, pura invenção. Mas não, agora os vestígios não enganavam. A verdade, nua e crua, entrava pelos olhos dentro… e, sem dó nem piedade, infligia rude golpe interior.
- Por que diabo o comprador consentira aquele estado de completo abandono?
Na ocasião em que foi posta à venda, vários vizinhos se mostraram interessados, mas nenhum cobriu a oferta do militar. Um ilustre desconhecido. Dele apenas se sabia que se ausentara do país, em missão de ajuda à Bósnia Herzegovina. Nunca habitou a casa, nem sequer, alguma vez, lá pernoitou! Estranho!
Avançamos pelo corredor principal, a medo, não vá o soalho de madeira desabar a qualquer momento! A meio, surge-nos a extensa varanda de cimento armado, que sobrevoa o páteo interior até à cozinha. Sentimos a segurança física de que precisávamos para prosseguir aquela viagem no tempo.
Uma dúvida, porém, me assaltou: como posso permanecer tão sossegado em casa que deixou de ser da família?
Páro para reflectir, mas sou impedido de o fazer por uma algazarra:
- Pai, que bonito, nunca vi coisa assim!
A estupefacção dos filhos envaidece-me. E, num ápice, vem tudo á memória: o avô, a avó e a tia Olinda. Os momentos que com eles vivi. Tanta brincadeira e correria. Tantas ceias naquela varanda, ao ar fresco da noite. Tanta aventura.
Não queria acreditar naquilo que os olhos viam!
Onde está o lugar de refúgio quando temia o castigo dos pais por alguma asneira cometida?! E a bela estante dos primeiros livros que li?! E o velho Telefunken que inundava a cozinha de belas canções? E a mesa de Natal à beira do fogão de lenha... e a casa alta, lugar nobre destinado a receber o Senhor na Páscoa?
Meu Deus! Nada existe. Tudo reduzido a pó!
Naquele instante, o mundo desabou a meus pés!